sábado, 30 de maio de 2009

The House at Sugar Beach - Helene Cooper


Helene Cooper fugiu da Libéria aos 14 anos, depois do golpe de Estado em que a mãe foi violada e o tio assassinado. Nos EUA, tornou-se repórter e foi cobrir todas as guerras, excepto as de África. Foi preciso estar à beira da morte no Iraque para pensar: que estou a fazer aqui? Escreveu "A Casa da Praia do Açúcar", editado em Portugal pela Quidnovi.

Em 2003, a repórter do "Wall Street Journal" Helene Cooper foi enviada para o Iraque. Fez todo o treino militar necessário para poder ser integrada, como "embedded", numa unidade do Exército, e partiu para o Kuwait, e depois para o Iraque, num jipe Humvee igual aos dos militares. Na confusão de um ataque, o veículo sofreu um acidente: um tanque passou-lhe por cima, esmagando-o. Todos pensaram que Helene tinha morrido. Principalmente ela própria. Ouviam-se gritos: "Ela está a sangrar! Ela está a sangrar!" Mas lá conseguiram retirar o jipe de baixo do tanque. Desencarceraram a tripulante, estenderam-a na areia do deserto, chamaram um helicóptero para a evacuação. A guerra quase parou, estavam todos à volta da jornalista. E, no meio de tudo isto, Helene pensava: "Eu não devia estar a morrer aqui. Se vou morrer, devia morrer a cobrir a guerra do meu próprio país, e não esta, que não me diz nada." E, pela primeira vez em 20 anos, Helene Cooper sentiu vontade de regressar a casa.
Em Washington, disse aos seus editores que queria ir para a Libéria, de férias. Eles sugeriram-lhe que fosse antes como repórter. A guerra civil tinha rebentado no país, que estava a ser evacuado de americanos. "Vai e faz uma reportagem", disse o editor. Helene foi. Tinha uma pista: a fábrica de pneus Firestone, onde sabia que a irmã trabalhara. Telefonou primeiro para a Firestone de Nashville, nos EUA, pedindo o contacto da sucursal liberiana. Dias depois ligou-lhe de um telefone-satélite o gerente da fábrica na Libéria. Helene disse: "Estou à procura de Eunice Bull." O homem respondeu:
"A Eunice não está aqui neste momento, mas..."
Helene, que ia a conduzir, travou subitamente, encostou o carro à berma. "Não está aqui neste momento?" Então Eunice estava viva!
Partiu para a Libéria e encontrou a irmã. "Foi a coisa mais importante que fiz na vida", diz Helene Cooper. "Quando agora penso nisso... não sei o que andei a fazer durante 23 anos!"
Tinha fugido da Nigéria aos 14 anos, após o golpe de estado de 1980, e nunca mais voltara. Toda a família viera para os EUA, excepto Eunice, a irmã adoptiva, que pertencia à etnia Bassa, considerada inferior. Os Bassa pertencam ao Povo da Terra, enquanto a elite era Povo do Congo. Helene, do Congo, não sabia se Eunice, da Terra, estava viva. Não sabia nada sobre o seu país, com o qual perdera totalmente o contacto, do qual não quis saber nada.
Agora, de regresso, o que sentia era um misto de estranheza e familiaridade. Mas também, inexplicavelmente, um grande orgulho. "A guerra civil estava em convulsão. Tinham chegado as forças de manutenção de paz, mas tudo estava ainda num pandemónio. Não havia electricidade, nem água corrente, milhares de órfãos enchiam as ruas, meninos-soldados, com metralhadoras AK-47. Eu saí do avião, dirigi-me para o terminal, ainda vestida como se estivesse no Iraque, com botas teflon, blusão cheio de bolsos, mochila... uma repórter americana. E via aquelas mulheres liberianas, com as suas toilettes sofisticadas, apesar de estarem numa zona de guerra, sempre a gritar umas com as outras... nesse primeiro momento senti-me muito americana. Refugiei-me na minha identidade de repórter, para me proteger. Mas depois comecei a sentir... espera lá! isto é a minha casa! E comecei a rir-me para dentro. Estou em casa, estou em casa."
Apanhou um táxi para a cidade. Pelo caminho, foi vendo como tudo estava destruído, com preocupação. E orgulho. "Este lugar é uma merda, mas é meu. Este lugar horrível é a minha casa. Eu venho de um lugar. Também tenho uma casa. Posso dizê-lo aos meus amigos americanos. Antes, não tinha nada para mostrar. Tenho andado a fugir disto, mas é isto que tenho de enfrentar. Porque demorei tanto tempo?"
Nas ruas, as pessoas reconheciam Helene, que entretanto se tornara muito parecida com a mãe. "Helene Cooper!" diziam. E apontavam para ela, ou vinham abraçá-la. "Era ao mesmo tempo fantástico e estranho."
Até aos 14 anos, Helene viveu num palácio de 22 assoalhadas, junto ao mar - a casa da Praia do Açúcar. Pertencia a uma família rica e "nobre", descendente dos colonizadores do país, que saíram dos EUA, em 1820, após a libertação dos escravos.
O que aconteceu depois foi que todos os "Congo" foram perseguidos, expulsos dos empregos, torturados, assassinados. O presidente e os ministros foram executados. A mãe de Helene foi violada por um grupo de soldados que entrou lá em casa, enquanto as três filhas esperavam, fechadas num quarto. O tio foi executado.
A família fugiu para os EUA. Eunice, a irmã adoptiva, foi deixada para trás. Helene foi viver para o Tenessee, depois para a Carolina do Norte. Tentou adaptar-se ao novo ambiente e, para isso, precisou de esquecer a Libéria.
A Helene não lhe interessava o que se passava na Libéria, mas interessava-lhe tudo o resto. Tornou-se jornalista. "Queria viajar. Queria cobrir a política americana e cobrir guerras. Não a minha, mas as guerras dos outros. Na Libéria, tudo aconteceu tão repentinamente. Fui apanhada de surpresa. De um momento para o outro, as pessoas comportavam-se de forma estranha, e eu nem queria acreditar que aquilo estava a acontecer. Agora queria compreender como é que as coisas acontecem. Para nunca mais ser apanhada desprevenida."
Com o "Wall Street Journal", para o qual trabalhou antes de entrar no "New York Times", Helene Cooper foi enviada especial a várias guerras, em todas as regiões do mundo, excepto África. Mas sempre soube que um dia voltaria lá.
A partir daí, quis trabalhar em todas as histórias relacionadas com a luta contra o terrorismo. Acabou no Iraque, "embedded" com os invasores, no meio de uma batalha em que chegou a pensar ter morrido. Foi preciso chegar a esse ponto. Agora sim, estava pronta para a sua terra.
Na Libéria, foi capaz de entrevistar os assassinos do seu tio. Encontrou Eunice, que tinha passado pelo Inferno, e lhe perdoou. Na verdade, nunca se sentiu abandonada. "Deus quis que eu ficasse, para ser mais forte", disse ela. E ainda conseguia sentir-se orgulhosa da irmã. "Ela, que vivia na Libéria, com toda a gente a matar-se, numa guerra muito mais violenta do que a iraquiana, voltou-se para mim, cheia de admiração: 'Uau, estiveste no Iraque, um lugar tão perigoso. Que corajosa que és!'"

Por:Paulo Moura

2 comentários:

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