domingo, 13 de outubro de 2019

Le chat du Rabbin


Após o seu bem sucedido 'Gainsbourg, vie heroïque', Joann Sfar apresenta-nos Le chat du Rabbin, uma espécie de viagem ao passado e ao seu primeiro grande amor: a banda desenhada. E eis que assim conhecemos o espírito rebelde de um gato falante que vive na Argélia cosmopolita da década de 1920. Rebelde, persistente e perspicaz,  o gato é o ponto de ligação entre uma simples historia de banda desenhada e a sua mensagem político- social, abrangendo um publico bastante amplo e diverso. O gato tem aqui o papel de perturbar o homem, de questiona-lo, critica-lo, de expor os medos e superstições humanas.  O gato é por si só a consciência humana. 
é claro que há sempre algo de burlesco e excêntrico nas histórias de gatos falantes, e a escolha do 3D é demasiado arriscada para planos tão invertidos e sem profundidade real. Mas Sfar quis ser fiel à imagem dos quadradinhos de banda desenhada. Daì a 'ausência de volume' das imagens. 
Por fim, o autor mantém a maioria dos pontos fortes e fracos de sua obra original, permanecendo as mesmas ambiguidades, inclusive o público em questão: com a sua mensagem de extrema clareza, o gato do rabino poderia falar perfeitamente com as crianças... isto se a natureza erótica e às vezes violenta nao falasse mais alto.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ENCHENTE


de 25 a 26 de Setembro 2019
Le Moulin du Roc


Coreografia : Luìsa Saraiva
Colaboração de Céline Bellut, Angela Diaz Quintela, Johann Geidie, Ching-Mei Huang, Francisco Pinho, Alejandro Russo, Max Wallmeier.
Luzes e cenografia : Jan Ellen
Música : Julius Gabriel
Costumes : Inès Mariana Moitas
Produção : Melchior Hoffman
Design : Dayana Lucas
Fotografia : © Jose Caldeira



sábado, 6 de julho de 2019

Exposition: Les Grands Enfants




De 9 de Julho a 31 de Agosto 2019
Das 14h às 19h
Le Pilori
1 place du Pilori 79000 Niort
Entrada Gratuita

quarta-feira, 19 de junho de 2019

The White Crow

Ralph Fiennes escolheu a história verdadeira do bailarino russo Rudolf Nureyev para o seu mais recente filme realizado. Poderia ter sido uma ótima parceria entre o cinema russo, inglês e francês se os russos não abandonassem o projeto antes do fim (por razões políticas, claro). Dirigido então por uma equipa inteiramente inglesa, o filme é um trabalho cinematográfico baseado na biografia de Nureyev escrita por Julie Kavanagh. 
As imagens são lindas e o filme desdobra-se diante dos nossos olhos como uma dança que vai e volta, como um espetáculo de dança protagonizado pelo próprio Nureyev. Mas o cinema tem os seus limites quando as filmagens são cíclicas e cheias de analepses que variam em três tempos: passado profundo, passado recente e presente. Perdemo-nos rapidamente numa mistura de tempos apresentados e o filme sofre de uma certa desordem mesmo na forma como foi filmado. Contudo, a ideia de misturar a juventude do protagonista com o seu presente, não foi de todo uma aposta falhada, já que é interessante o efeito espelho que essa proposta nos oferece.
O filme brinda-nos com planos maravilhosos, cores magníficas e um cenário bastante competente. À parte de  Ralph Fiennes (que também brilha como ator) e Adele Exarchopoulos, todo elenco é praticamente desconhecido. Portanto a imersão no enredo torna-se ainda mais intensa. O papel principal do dançarino russo é dado a Oleg Ivenko, um também bailarino que será um desconhecido no mundo do cinema. A sua performance é incrível tanto como bailarino como ator expressivo e emocional. Além do mais, as semelhanças com Nureyev são perturbadoras.
Assistimos à vida alienada de um personagem igualmente sofrido, que deambula entre bissexualidade, oportunismo e sacrifício, num período de guerra fria que o levará a pedir exílio à França. A probabilidade de se sair da sala de cinema com vontade de ver um ballet é enorme. Portanto, fica aqui provado o sucesso de Ralph Fiennes ao querer transmitir a paixão animal que o protagonista sentia pelos palcos.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Revolutionary Road

Revolutionary Road é um filme sobre a degradação do 'American Dream' dos anos 50 e que vive das belas interpretações de Kate Winslett e Leonardo di Caprio. O filme é deles. As suas presenças são a base de tudo, não fosse Sam Mendes o realizador, exímio como diretor de atores que explora (como sempre) o seu cinema com o tal toque de encenação teatral. 
O olhar crítico sobre a época em questão é de uma inteligência evidente, embora haja a necessidade da fidelidade ao romance original de Richard Yates. Contudo, Sam Mendes não vai mais longe. É só e apenas isto: um filme competente e muito bem ilustrado pelo brilhantismo dos actores. 

sábado, 15 de junho de 2019

Elisa y Marcela

Elisa y Marcela é um filme baseado numa história real ocorrida em Espanha no ano de 1901: duas mulheres mantêm uma relação amorosa numa época em que pessoas com relacionamentos homossexuais eram perseguidas e acusadas de prática de crime. O filme é a preto e branco, numa espécie de documentário sério e real, mas cabe ali muita imaginação para preencher episódios que não se sabem e se perderam com o tempo. Isabel Coixet é a responsável pela direção e roteiro deste filme original da Netflix. 
Dado que as duas protagonistas vivem um romance escondido e proibido para a época, uma delas decide assumir a identidade de um primo falecido, vestir-se como  um homem e viver socialmente como um homem, para assim poderem casar. E surpreendentemente conseguem-no fazer já que um padre de uma pequena paróquia de Espanha acredita nesta mentira.  Na privacidade da sua casa as duas mulheres divertem-se de maneira sensual, como um verdadeiro casal. O sexo lésbico surge de forma natural, simples e vulgar. Contudo os efeitos, sobreposições e expressividade (teatral) são um tanto ou quanto exagerados, quiça para romper com a ideia de 'leveza' do sexo entre duas mulheres. 
Sendo a união de Elisa e Marcela o primeiro casamento gay da Espanha, falta ao filme algo mais para dignificar tal acontecimento histórico. A visão social e as dificuldades de aceitação deste matrimónio são partes do roteiro pouco exploradas. E esse 'pouco' é sempre (e majestosamente) visível num contexto de cinema mudo- é certo que as imagens falam por si mas para se denunciar preconceitos e mudar mentalidades é preciso mais. Porque a intenção do filme é clara: mostrar que após tantas décadas passadas os casais homossexuais ainda têm de lutar pelos seus direitos, e a necessidade de instrução social para respeitar e aceitar diferenças ainda tem um longo caminho a percorrer.  Porque o preconceito existe. Ainda. 
Há detalhes da história que se perdem por se dar demasiada importância ao amor entre ambas. Tudo o que é comum a cada uma delas, independentemente de formarem um casal, foi posto de lado. Quem é Elisa sem Marcela? E Marcela sem Elisa? O desiquilíbrio narrativo é evidente. Porem, Elisa y Marcela é um filme bonito em relação ao que se propõe a apresentar.  



domingo, 9 de junho de 2019

Le musée de l'Inquisition à Carcassonne

Aceda aqui ao site. 

(É um museu interessante, dado a temática do mesmo, mas exageradamente caro para o pouco que apresenta. Os objetos expostos estão espaçados em demasia e os manequins existentes, numa tentativa de recriar o ambiente da época, parecem tirados de uma loja de roupa da baixa da cidade e vestidos com trapos em saldo. Para a abordagem ser verdadeiramente interessante, o museu merece uma renovação, tanto no edifício em si como nos objetos expostos . A evitar, dado que a visita é tudo menos pedagógica).

sábado, 1 de junho de 2019

La vie d'une autre

Juliette Binoche é a protagonista de "La Vie d'une Autre", que inexplicavelmente acorda de um dia para o outro sem se lembrar dos últimos quinze anos da vida dela. Inexplicavelmente para ela e para nós, o público, que ficamos sem nunca perceber o porquê de tal lapso de memória. E mesmo sem se saber tal razão, somos encaminhados e embalados por ali dentro, já que é este lapso de memória o ponto fulcral do enredo. Resumindo, Marie, a personagem,  acorda e ao ver-se ao espelho encontra uma mulher de 40 anos e não de 25. Ao sair do quarto depara-se com um filho que não conhece, uma casa de luxo que não conhece, um cargo de diretora empresarial que nunca sequer sonhou e um marido que conhece de um romance de umas férias de verão.
Há uma busca incessante pelo humor para descrever o drama inerente à aflição da personagem. Creio que o objetivo é criar toda a dinâmica de uma história romântica mas o resultado final deambula entre o ridículo e o bem intencionado. Somente.  Até porque o motivo da falha de memória nunca é revelado. E tão pouco existe o desvendar dessa falha de memória de Marie para os seus mais próximos. O filme explora única e exclusivamente a adaptação de Marie às novidades em que vai tropeçando diariamente para daí tirar o máximo de humor possível como se só isso bastasse. Só que não. 
"La Vie d'une Autre" vagueia entre o romance, a comédia e o drama, perdendo-se por ali fora nas suas próprias temáticas sub-exploradas. Vale-lhe uma atriz como Juliette Binoche e um ator como Mathieu Kassovitz que exploram muito bem as suas inquietações e salvam o filme de males maiores.

domingo, 26 de maio de 2019

I'm Mickael

Filme polémico e controverso, I'm Mickael é uma porta aberta à grande discussão da homossexualidade e religião. Será realmente possível ambas coabitarem em harmonia? Ou simplesmente é impossível misturá-las? Perguntas que se fazem e se expõem neste filme baseado em factos reais sobre um jovem gay americano, co- fundador da revista Young Gay America e defensor dos direitos LGTB, que após alguns episódios e reflexões pessoais, decide negar a homossexualidade e abraçar a vida de pastor numa igreja americana
A mudança radical de vida do personagem está muito aquém do merecido, no meu entender. Fica-se com a ingenua ideia de que o personagem é algo perturbado com episódios do seu passado e num momento de grande ansiedade e medo da morte, decide ouvir a fé interior e olhar para  os céus e descobrir Deus. Deus é ao fim ao cabo uma resposta desesperada para alguém que vive num momento de total interrogação. Quero acreditar que a verdade é muito mais profunda que uma simples mente perturbada que de um dia para o outro decide mudar de vida e de crenças. 
James Franco é um perturbado compulsivo radical bastante competente que se destaca entre um roteiro e direção pouco inspirados , que coloca a religião como elemento castrador e pouco libertador e a homossexualidade como principal inimiga de castrações e faltas de liberdade. Só que a dualidade de ambas as temáticas é muito mais ambígua que tudo isto. 




sábado, 25 de maio de 2019

L'Homme Fidèle

A história deste filme é tão simplesmente o reencontro de Abel e Marianne, um ex- casal separado há mais de dez anos que se reencontra após a morte do marido de Marianne. O objectivo de Abel é reconquistar o amor da sua vida que no passado o traiu e trocou pelo então marido morto. Mas agora, existem duas pessoas que marcam o percurso e reencontro dos protagonistas: o filho criança de Marianne e a cunhada da mesma, uma eterna apaixonada por Abel.
Louis Garrel, realizador e actor do filme, não foge aos seus últimos trabalhos como cineasta. A ideia dos triângulos amorosos é até agora a sua marca mais expressiva, pincelada de humor irónico e drama um tanto ou quanto melancólico. Portanto, nada muda. Garrel é o homem fiel como ator e realizador.
Planos simples e cenários simples que atribuem leveza ao filme. Este transborda qualidade no seu ritmo natural e compassado ao contar uma história bonita que vive da agitação sentimental das personagens.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Green Book

Green Book insere-se no grupo de filmes onde o racismo é tema primordial como marca do passado ainda bem exposta ao presente. Conta a história, baseada em factos verídicos, da relação entre um motorista branco e italo-americano e o célebre pianista Don Shirley, que precisava de alguém que o conduzisse numa digressão pelo sul dos EUA. E a narrativa é gradual: dois indivíduos que nada têm em comum e onde os opostos se atraem ao ponto de culminar numa bela amizade. Shirley é o negro rico e privilegiado que não é aceite pelos brancos (a não ser quando toca piano), nem é reconhecido como negro pelo excessivo privilégio que tem de ser uma 'figura pública'. O motorista é um emigrante italiano que batalha todos os dias para colocar dinheiro em casa e ferve em pouca água (à boa maneira latina). 
Green Book, o título do filme, era  um guia para viajantes negros no Sul dos EUA, indicando os sítios a evitar e aqueles mais seguros que toleram a presença de pessoas de raça negra. Para fazer jus ao título, o filme fica um bocadinho aquém, já que esta é uma versão muito suave da segregação vigente nos EUA, nos anos 60. Contudo, não podemos esquecer que o verdadeiro intuito do filme é honrar a amizade entre dois homens de raças diferentes e não relatar a verdadeira divisão entre negros e brancos. É um hino à fraternidade. Não é um documentário sobre segregação. O filme foi o vencedor do Óscar de 2019 e beneficiou das óptimas interpretações de Viggo Mortensen e Mahershala Ali. 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

O Farol das Orcas

Esta é a história de uma mãe, que viaja de Madrid até à Patagônia argentina, para conhecer um biólogo marinho em quem deposita toda a sua fé para obter alguma ajuda na relação do seu filho autista com o mundo. Fé que nasce quando percebe que a criança, que mal fala, mal se expressa e mal interage com o que o rodeia, mostra algum interesse e emoções ao ver um documentário deste biólogo com orcas.  Beto o biólogo, é um homem solitário, rude e amargurado, que vê o mundo transformar-se com a chegada destes dois. O filme é inspirado numa história real, embora não lhe seja totalmente fiel. 
Repleto de belas imagens e ótima fotografia, este filme é um primo afastado de qualquer documentário da BBC Vida Selvagem. Somos constantemente invadidos pela grandiosidade da natureza. E isso sabe-nos bem. E faz muito bem ao filme que inspirado numa história real foge por vezes da simplicidade da mesma para se amarrar ao drama e romantismo forçados do cinema. Isto para dizer que era dispensável a mãe da criança e o biólogo apaixonarem-se. Tão dispensável como o foi na vida real onde nada disso aconteceu. De resto, O Farol das Orcas, é um filme competente e bonito, que mostra as possíveis relações entre seres humanos e animais. 

sábado, 9 de março de 2019

O rapaz que prendeu o vento

Esta é uma história verdadeira. A história de William Kakwamba, um rapaz do Malawi, que constrói um moinho de vento rudimentar com muito poucos recursos, para ajudar a aldeia e a família a escaparem à fome. Baseado no livro homónimo escrito pelo próprio  Kakwamba, o filme marca a estreia na realização de Chiwetel Ejiofor. A história é por si só cheia de paixão e emoção, dadas as circunstâncias reais e os contornos da própria narração. Mas Ejiofor orienta o seu trabalho para um sentimento dramático já há muito experimentado no cinema. No entanto, é de destacar a fotografia e montagem, que de quase perfeita, faz-nos como que sentir o cheiro de África. Realce também para a prestação dos atores que mereciam um filme mais profundo nas questões políticas e ambientais abordadas. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Pular a Cerca

Pular a Cerca  é uma produção da Dreamworks baseada na história de um grupo de animais que vive a meias paredes com o mundo urbano e que aos poucos vai invadindo a floresta. A temática é atual e pertinente. Ao longo da história somos testemunhas e cúmplices da devastação da natureza e do habitat dos animais em detrimento de construções humanas a um ritmo cada vez mais acelerado. O filme , esse, perde um pouco do fio à meada quando a temática explorada é muitas vezes secundarizada e ultrapassada pela versão sentimentalista e infantil de mostrar o egoísmo versus entreajuda dos protagonistas. Fica uma sensação de 'podia ter-se feito muito mais dada a riqueza do tema'. 
Contudo e visualmente não há nada a apontar. Desenhos incríveis e ótimas fotografias. Mas isso não é novidade e esperamos sempre mais e melhor da Dreamworks. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

No Portal da Eternidade

Julian Schnabel conta-nos como, porventura, foram os últimos dias de Van Gogh, apostando em filmar de câmera na mão para realçar o tom crú e angustiante do seu filme. Os seus movimentos variam entre a subtileza e a brusquidez, consoante for o humor de Van Gogh.  Assim oé também a banda sonora, ora azeda ora doce. O objectivo é tentar reproduzir os momentos de histerismo e desarrumação interior do pintor.  
Willem Dafoe é um brilhante Van Gogh e é sem surpresas um dos nomeados aos Óscares 2019. E é ele também quem nos prende ao filme quando este por vezes estagna. 
O filme não pretende arrancar sorrisos ou lágrimas (ainda bem). Pretende sim, e humildemente, mostrar a pessoa que foi Van Gogh. A pessoa e não somente o artista. Trata-se de humanizar Van Gogh. De mostrar o homem e não só o legado cultural que deixou. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

MONSTRES

Chorégraphie : DeLaVallet Bidiefono
Textes : Rébecca Chaillon et Armel Malonga
Dramaturgie : Aurelia Ivan
Collaboratrice artistique : Carine Piazzi
Danseurs : DeLaVallet Bidiefono, Destin Bidiefono, Fiston Bidiefono, Aïpeur Foundou, Ella Ganga, Mari Bède Koubemba, Cognès Mayoukou, Lousinhia Simon
Musiciens : Francis Lassus, Armel Malonga, Raphaël Otchakowski
Performeuse : Rébecca Chaillon
Crédit photos : Christophe Péan



5/2/2019 - 20h30
Le Moulin du Roc
Niort

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

The Breadwinner

Estamos no ano de 2001 em pleno Afeganistão. O país é controlado pelo regime Talibã e vive uma guerra civil em que a maior parte da população vive condicionada e sob pressão, dadas as restrições de liberdade. É neste cenário que vive Parvana, a filha de um professor e de uma escritora, que há muito foram impedidos de exercer as suas profissões. A educação é proibida e a miséria espreita a cada esquina da cidade de Cabul. As mulheres não podem sair à rua sem um acompanhante masculino. E é esta missiva que Nora Twomey (direção) e Angelina Jolie (produção) se comprometem a evidenciar. Estamos então perante um filme com perspectivas feministas que atinge contornos realistas e pessimistas, para poder 'gritar' ao mundo que existem regimes opressores no Médio Oriente e que os massacres e atentados contra a liberdade e os direitos humanos são uma constante.  
A história é uma adaptação do livro homônimo de Deborah Ellis e conta as desaventuras da menina Parvana que após a prisão injustificada de seu pai se vê obrigada a vestir-se de menino e a comportar-se como tal, para poder sair à rua e arranjar trabalhos que possam sustentar a mãe, a irmã e o seu irmão bebé. 
O argumento é duro, frio e atroz.  Tal como o livro. E a par deste é narrado um conto imaginado por Parvana, que demonstra a capacidade e a instrução da menina, por ter pais letrados. O conto, também ele algo duro e atroz,  surge quando Parvana precisa de acalmar e embalar o seu irmão mais novo ou quando precisa de acalmar a sua amiga em situações de ansiedade e medo. No meu entender, o conto seria desnecessário, ou então mereceria um encurtamento, para não atropelar o ritmo da história principal.
A animação é de traços e de cores fortes e pretende sempre evidenciar o medo e a repressão vividos pelos personagens. Contudo, o castanho é a cor dominante e escolhida para pintar cidades, desertos e as próprias personagens. Entendo a escolha mas chega ao ponto em que se torna cansativo todo aquele cenário marron. 
O mais importante neste The Breadwinner é a lição de que se pode fazer animação com assuntos sérios e temáticas adultas ao alcance de qualquer olhar infantil. É mostrar que a educação também faz parte quando apelamos às crianças para que reflitam sobre os problemas do mundo e da sociedade. Porque nem só de fantasia deveria ser feito o universo infantil. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Maryline


Guillaume Gallienne apresenta-nos a sua segunda longa-metragem, depois do sucesso proclamado nos Césares 2013 com A Mamã, os Rapazes e Eu. Este filme é uma reflexão sobre o mundo do  “espectáculo”,  através da evolução 
de uma jovem actriz: vinda de uma pequena aldeia acaba por escolher Paris para fugir à monotonia e lançar-se no mundo do cinema. 
Maryline é a imagem comum de uma protagonista idealista, ingénua e verdadeira, que acaba por ver o seu percurso dificultado pela mesquinhez, concorrência e deslealdade existentes em ambientes de bastidores.  Amarguras enterradas no álcool, Maryline é salva aqui e ali por colegas de trabalho humildes (fora da área do espetáculo), por gente simples e  pela descoberta do teatro. E é pelo teatro que a protagonista vinga como actriz e mulher mais realizada. Dramatismo e histerismos à parte, o filme é um banho singelo de realidade, mesmo que tenha nascido de uma a ideia comum e demasiado semelhante a tudo o que se fez até agora.  



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Happy End


 Happy End de Michael Haneke, é o sucessor do admirável  Amor (2012), e repete as presenças de Jean-Louis Trintignant e de Isabelle Huppert
Ao contrário do título, a história de feliz não tem absolutamente nada. Assistimos ao lento desabamento em tempo quase real de uma família rica de Calais, com as suas crises pessoais, conflitos familiares e obstáculos profissionais. Existe um patriarca viúvo que perdeu a alegria de viver e aspira pela morte, chegando mesmo a tentar o suicídio, uma filha enamorada de um inglês e às turras com um filho desequilibrado, a tentar assumir o controle dos negócios de família e um filho cirurgião obrigado a tomar conta de uma filha que pouco conhece, após a hospitalização da mãe da mesma.  Em torno desta família gira o mundo real: sindicatos em greve, inspetores do trabalho e emigrantes africanos. 
Haneke é exímio mais uma vez no cruzar de pequenas histórias que formam um todo e na forma rude, fria e real como as filma. É fácil envolvermo-nos no que vemos com aquela sensação de murro no estomago e azia na boca. Não tão fácil quanto em Amor já que este Happy End é filme mais recatado, mais tímido e confortável. Ainda assim, é fácil o envolvimento. 
Excepção feita a algumas pontas mal entrelaçadas e explicadas, Happy End é mais um filme de Haneke de grande qualidade. Sem surpresas. O ator mantém o registo (de enorme talento) a que já nos habituou. 

domingo, 20 de janeiro de 2019

O Gato das Botas

O Gato das Botas é um filme que tem como personagem principal o amigo felino (retirado) do tão conhecido "Shrek". Depois do sucesso que fez em "Shrek" chega agora o momento do gato brilhar a solo. 
Este felino hispânico a quem Antonio Banderas empresta a voz, é o herói charmoso e latino, versão peluda do Zorro, que protagoniza assim uma aventura em nome próprio, numa altura em que "Shrek" já deu o que tinha a dar. 
O Gato das Botas é assim um filme cómico, familiar  e despretensioso que emerge misturado com a fábula do João e o Pé de Feijão e a Gansa dos Ovos de Ouro em versões modernas das mesmas.  
A animação é de primeira categoria, cheia de aventura, correrias e perseguições, que justificam a brilhante utilização do 3D- o grau de realismo dos animais nos seus movimentos e nos seus pelos é exemplar. 

sábado, 19 de janeiro de 2019

Invencível


Angelina Jolie, a atriz agora também realizadora, assina o seu Unbroken numa constante oscilação que tornam o filme um pendulo ora de melodrama ora de pura reflexão sobre a natureza humana.  Que ela tem olho e jeito para ficar atrás das câmaras, tem. Não há dúvidas. É pena, por isso, que não arrisque mais e seja decisiva no caminho que quer dar ao que realiza. 
Este filme de guerra poderia muito bem ter sido uma daquelas epopeias candidatas a um Óscar. Porque a grandiosidade que quer atingir é a do prestígio. E parece até que basta-lhe isso. Porque de resto, há um  vazio a preencher e uma identidade para assumir. Mas Angelina vai chegar lá. Creio eu. 


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Lady Bird

Lady Bird é um filme despretensioso e humilde que nos deixa com um sorriso no rosto. É isto. É mesmo isto. Greta Gerwig estreia-se nas longas metragens ao contar-nos uma história simples e deliciosa da chegada à maturidade e dos mais diversos conflitos da adolescência. Ouso dizer que há algo de biográfico neste filme que se passa em Sacramento, a cidade de Greta, e que tem como protagonista uma jovem filha de uma enfermeira e de um consultor financeiro, como a Greta. À partida, a temática é assunto bem repetido no mundo do cinema. E é: jovem adolescente tempestiva e pouco dada a popularidades, que estuda numa escola católica e vive em discussões com a mãe, que a controla como pode e desdobra-se em horas extras de trabalho para compensar as dificuldades económicas do lar.  Contudo, Greta prova-nos que é possível fazer algo de diferente mesmo abordando temáticas já bastante exploradas. 
O texto repleto de diálogos comuns e naturais, aproximam o espectador da protagonista, que consegue quase comungar do caminho da mesma até ao grito libertador da chegada à maturidade. Greta opta por ser detalhista nos diálogos que retratam com exatidão o processo atabalhoado da saída da adolescência e a entrada sufocante na vida adulta. Há um toque subtil de leveza e sensibilidade que permite exatamente isso. 
Evita-se o drama exagerado e opta-se pela surpresa e provocação, sempre ao nível dos assuntos mais comuns do dia a dia de uma adolescente. Exemplo disso é aquela descoberta (da protagonista) de que perder a virgindade pode ser a coisa mais banal e a menos especial da vida. Greta não inventa nada. Conta as coisas como elas são de forma honesta, real e autêntica. Há um senso de humor delicioso que nos faz rir do quão ridícula é a vida no seu percurso natural. 
Lady Bird é um filme feminista sobra a ansiedade de se ser mulher e todos os desejos que isso acarreta: a busca de afirmação e de amor e as quedas e tropeções até se lá chegar. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Layla M.

Layla M. é um filme holandês que conta a história de uma jovem marroquina muçulmana que nasceu e vive em Amesterdão. Layla M. é uma adolescente orgulhosa da sua descendência muçulmana e desgostosa do racismo e do medo ocidental pela cultura árabe. É a típica personagem que se sente estrangeira no país onde nasceu e que passa o tempo a informar-se sobre a situação dos povos islâmicos pelo mundo. Daí ao radicalismo, extremismo e ódio latente pelo Ocidente é um salto, obviamente. E este é o objetivo do filme: retratar jovens que acabam por aderir a movimentos de extremismo islâmico. Layla M. dá cara a todos estes jovens. O dia a dia dela é marcado pelo estudo do Alcorão de forma errônea, pela participação em manifestações que incitam à violência e ao ódio e pela sua aproximação a líderes políticos do Estado Islâmico. Daí a fugir de casa, a casar-se com outro extremista islâmico e a rumar à Síria é outro salto, obviamente. Apesar de Layla M. não cair no famoso cliché de ser apresentada como uma terrorista sem limites e até ser uma personagem complexa, com vários traços na sua personalidade, creio que o filme balança para projetar apenas o perigo e devaneios do extremismo islâmico. E nada mais. As atitudes corretas e ponderadas de personagens árabes são curtas e discretas e o racismo a que estas são submetidas é de uma nuance pouco vincada. Por outro lado, atitudes incorretas e radicais são numerosas e dominadoras. É certo que a realizadora não cria monstros ao retratar extremistas islâmicos e o seu objetivo passa por apontar o dedo ao terrorismo. Contudo, creio que o filme não favorece a compreensão de que o Islão é muito mais que radicalismo,  terrorismo e coisas afim. (Há apenas uma filmagem bonita que embeleza a cultura árabe ao longo de hora e tal de filme: A dança entre Layla M. e o marido num pequeno quarto de hotel.)  Não basta colocar a família de Layla M. e mais duas ou três personagens como opositoras a tudo o que seja radical. Exigia-se mais. Sabemos que nem todo o Islão é terrorista e nem todos os heróis são do mundo Ocidente.  Mas há que sabê-lo e compreendê-lo mais. Muito mais. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Tallulah

Tallulah é a história de uma jovem pobre, marginalizada, delinquente e que vive com o namorado numa camionete. Após ter sido abandonada pelo namorado ela enceta uma viagem à sua procura e vê-se engolida por uma série de acontecimentos que mudam drasticamente a rotina da mesma. Tudo começa com o inconsequente e pouco malicioso rapto de uma bebé e a procura de ajuda na única pessoa adulta que conhece- a mão do seu namorado.
A relação de Tallulah com a mãe do seu namorado é porventura a base e a única coisa sustentável no meio disto tudo. Uma é órfã de mãe (que a entregou aos cuidados do pai e mais nada se sabe) e a outra é órfã de um filho que desapareceu para andar por aí na camionete da namorada. As duas protagonizam cenas interessantes de diálogos, como quando discutem a gravidade, por exemplo. Nota-se a evolução das duas personagens ao longo do filme e o ótimo enquadramento entre elas. Trabalho positivo da direção do filme e também das boas representações de Ellen Page (Tallulah) e Allison Janney (Margo). 
De resto, tudo chega a ser insustentável. A mãe da bebé raptada é estereótipo desenquadrado de tudo o mais, os polícias são ridiculamente ineficazes e ridicularizados, quase figuras sempre enganadas de banda desenhada, e as outras personagens são secundarizadas ao ponto de não fluírem sequer ao ritmo do filme, e acabando por serem abandonadas ao não sabermos sequer o fim que lhes é destinado.  
História inusitada, divertida e até emocionante, a de Tallulah, a bebé e Margo. (Não existem vilões, somente pessoas que erram, tropeçam e desconstroem-se). História que merecia mais para ser um bom filme. Porque o resto do filme destoa e não chega aos mesmos níveis de sentimentalismo, suspense e reflexão do trio feminista. 


sábado, 12 de janeiro de 2019

O sorriso de Monalisa

Em O Sorriso de Monalisa (Mona Lisa Smile), a personagem de Julia Roberts- Katherine Watson, é uma professora solteira convicta, citadina e liberal do estado da Califórnia que decide rumar à tradicional e antiquada Nova Inglaterra para lecionar a cadeira de História de Arte numa das mais conceituadas universidades dos EUA- a Wellesley. Ao chegar no seu novo trabalho, Katherine logo percebe que as suas alunas são mais do que apenas inteligentes e esforçadas. São robóticas, feministas e educadas para casar e servir os futuros maridos. Entra aqui então a função de um bom educador, que passa por ensinar a pensar. E este passa a ser o principal objetivo de Katherine- lutar contra uma sociedade machista e arcaica que educa mulheres para serem única e exclusivamente servidoras do lar. A história é assim comum, já bastante visível em muitos outros filmes, e em nada consegue diferenciar-se e alcançar alguma inovação.  As motivações e carácter das personagens são desde cedo muito claros, deixando pouco para a nossa imaginação. Poderia eventualmente retirar-se mais do talentoso elenco, que conta com a já citada Julia Roberts, e ainda Maggie Gyllenhaal, Marcia Gay Harden, Kirsten Dunst e Ginnifer Goodwin. Todas elas muito mal aproveitadas. Tão mal aproveitadas como a própria temática, longe de ser bem trabalhada e aprofundada. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Roma

Aí está o regresso de Alfonso Cuarón ao México, onde já não filmava desde 2001. Este 'seu'  México data de 1970 e apresenta-nos o bairro da Cidade do México denominado a Colonia Roma. Filme que roça a autobiografia e a própria visão de Alfonso sobre o espaço temporal em questão. 
E a sua própria visão chega-nos através da filmagem de uma família de classe média (porventura inspirada na sua), uma mãe, um pai, um possível 'divórcio', uma avó e duas criadas índias. Não sabemos muito da visão e pensamento de cada personagem porque Alfonso não o quer. Alfonso apresenta-nos esta família de forma contemplativa. O ponto de vista de cada um dos intervenientes é distante, quase nulo. A única excepção será o olhar de uma das criadas, aquela a quem o filme segue mais de perto. E aí podemos observar o seu olhar sobre a  família, mesmo que também seja um olhar distante e discreto. Não fosse este o retrato fidedigno do olhar de uma criada perante a família que serve nos anos 70.  
A reconstituição de época é detalhada e minuciosa, o que provoca no público mais atento uma sensação de leitura de um livro de história.  Alfonso dá vida às grandes avenidas e ruas da capital mexicana dos anos 70 com uma rigorosidade incrível. As casas e espaços interiores também brindam pela mesma rigorosidade, riqueza e pormenor descritivo. A quantidade de informação visual é tanta que agradecemos a bela fotografia panorâmica a preto e branco e planos lentos de vários minutos. É até de louvar quando a câmara pára em certos pontos fixos que porventura são muitos. 
Obra essencialmente intimista e épica no retrato da sociedade mexicana: parte de dentro de casa ao convidar-nos a entrar pelas traseiras do lar da família retratada- é curiosamente a mesma entrada acessível aos criados- para se prolongar pelas ruas e avenidas da capital mexicana, pelas suas rotinas, crises e agitações políticas. 
Elegante, inteligente, real e rico em metáforas, Roma  é cinema em estado puro.   

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Okja

Okja é um filme do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho que abrange o mais diverso público: crianças e adultos. Bong inspira-se no ocidente para criar o seu porco geneticamente modificado e gigante, que poderia bem ser um parente do Dumbo dos estúdios da Disney. Bong também bebe influências do oriente ao caracterizar as suas personagens ao jeito de Totoro e outras mais animações japonesas. O filme parte de uma premissa simples, demasiado usada mas que tende a não desaparecer: a relação de amizade entre uma criança e o seu animal de estimação. O que torna Okja interessante é o devaneio entre o humor e a violência. Nesta oscilação entre a caricatura e a agressividade, o filme encontra o seu meio termo na sátira e a partir daí expande-se numa mensagem político-humano-social: o capitalismo é o alvo do realizador. Okja fala de assuntos sérios pintados pela sátira cor de rosa: fala de comida, do consumo e do mundo saturado em que vivemos. A não perder...

domingo, 6 de janeiro de 2019

O Físico

Baseado no best-seller do escritor norte-americano Noah Gordon, O Físico (The Physician) conta a história de Rob Cole (Tom Payne), um jovem inglês corajoso e destemido que atravessou o mundo, desde a Europa à Pérsia, e enfrentou perigos para aprender a arte de curar e salvar vidas através da medicina, numa época onde essa prática era proibida pelo fundamentalismo religioso.
O roteiro é bem construído e destaca sempre o eterno conflito entre ciência e religião, dado que, e sobretudo durante a Idade Média, a linha que separava tratamentos médicos da magia negra era bastante ténue. Desnecessário seria o romance do protagonista, com destaque exagerado desde o meio do filme até ao fim. A fotografia (computorizada) de excelência brinda-nos com uma experiência visual magnífica, fiel aos cenários da época. 

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Bird Box

Bird Box foi a aposta da Netflix para o final de 2018. Inspirado no livro de Josh Malerman, Bird Box, conta uma história de sobrevivência, que vagueia entre o drama, o suspense e até mesmo o terror (para quem se conseguir assustar, óbvio). O filme não é um poço de novidades e chega mesmo a roçar o cliché nas temáticas pós- apocalípticas exploradas pela indústria do cinema. No entanto, é um trabalho razoável dentro desta mesma temática. Razoável porque opta por não mostrar o 'monstro' que ameaça a terra e joga com o mistério e suspense.  
O mundo pós- apocalíptico chega-nos através dos olhos da personagem de Sandra Bullock- uma grávida deprimida e abandonada pelo marido. Há duas linhas temporais que se cruzam constantemente para intercalar acontecimentos e explicar ao espectador o caminho trilhado pela protagonista que se encontra em fuga numa canoa com duas crianças e em busca de algum lugar seguro. Explicação confusa, diga-se. E é este o princípio e fim do filme: a fuga à ameaça apocalíptica e a descoberta de um lugar seguro.
De destacar as interpretações de Sarah Paulson, Sandra Bullcok e John Malkovich. Por vezes, aquele medo vazio e desprovido de lucidez que ridiculariza a história, é resgatado nas brilhantes interpretações destes atores, que encarnam na perfeição esse pânico do desconhecido e do 'fim do mundo' como o conhecemos.
E pronto, Bird Box não traz nada de novo. Apenas nos entretém.