sábado, 9 de março de 2019

O rapaz que prendeu o vento

Esta é uma história verdadeira. A história de William Kakwamba, um rapaz do Malawi, que constrói um moinho de vento rudimentar com muito poucos recursos, para ajudar a aldeia e a família a escaparem à fome. Baseado no livro homónimo escrito pelo próprio  Kakwamba, o filme marca a estreia na realização de Chiwetel Ejiofor. A história é por si só cheia de paixão e emoção, dadas as circunstâncias reais e os contornos da própria narração. Mas Ejiofor orienta o seu trabalho para um sentimento dramático já há muito experimentado no cinema. No entanto, é de destacar a fotografia e montagem, que de quase perfeita, faz-nos como que sentir o cheiro de África. Realce também para a prestação dos atores que mereciam um filme mais profundo nas questões políticas e ambientais abordadas. 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Pular a Cerca

Pular a Cerca  é uma produção da Dreamworks baseada na história de um grupo de animais que vive a meias paredes com o mundo urbano e que aos poucos vai invadindo a floresta. A temática é atual e pertinente. Ao longo da história somos testemunhas e cúmplices da devastação da natureza e do habitat dos animais em detrimento de construções humanas a um ritmo cada vez mais acelerado. O filme , esse, perde um pouco do fio à meada quando a temática explorada é muitas vezes secundarizada e ultrapassada pela versão sentimentalista e infantil de mostrar o egoísmo versus entreajuda dos protagonistas. Fica uma sensação de 'podia ter-se feito muito mais dada a riqueza do tema'. 
Contudo e visualmente não há nada a apontar. Desenhos incríveis e ótimas fotografias. Mas isso não é novidade e esperamos sempre mais e melhor da Dreamworks. 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

No Portal da Eternidade

Julian Schnabel conta-nos como, porventura, foram os últimos dias de Van Gogh, apostando em filmar de câmera na mão para realçar o tom crú e angustiante do seu filme. Os seus movimentos variam entre a subtileza e a brusquidez, consoante for o humor de Van Gogh.  Assim oé também a banda sonora, ora azeda ora doce. O objectivo é tentar reproduzir os momentos de histerismo e desarrumação interior do pintor.  
Willem Dafoe é um brilhante Van Gogh e é sem surpresas um dos nomeados aos Óscares 2019. E é ele também quem nos prende ao filme quando este por vezes estagna. 
O filme não pretende arrancar sorrisos ou lágrimas (ainda bem). Pretende sim, e humildemente, mostrar a pessoa que foi Van Gogh. A pessoa e não somente o artista. Trata-se de humanizar Van Gogh. De mostrar o homem e não só o legado cultural que deixou. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

MONSTRES

Chorégraphie : DeLaVallet Bidiefono
Textes : Rébecca Chaillon et Armel Malonga
Dramaturgie : Aurelia Ivan
Collaboratrice artistique : Carine Piazzi
Danseurs : DeLaVallet Bidiefono, Destin Bidiefono, Fiston Bidiefono, Aïpeur Foundou, Ella Ganga, Mari Bède Koubemba, Cognès Mayoukou, Lousinhia Simon
Musiciens : Francis Lassus, Armel Malonga, Raphaël Otchakowski
Performeuse : Rébecca Chaillon
Crédit photos : Christophe Péan



5/2/2019 - 20h30
Le Moulin du Roc
Niort

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

The Breadwinner

Estamos no ano de 2001 em pleno Afeganistão. O país é controlado pelo regime Talibã e vive uma guerra civil em que a maior parte da população vive condicionada e sob pressão, dadas as restrições de liberdade. É neste cenário que vive Parvana, a filha de um professor e de uma escritora, que há muito foram impedidos de exercer as suas profissões. A educação é proibida e a miséria espreita a cada esquina da cidade de Cabul. As mulheres não podem sair à rua sem um acompanhante masculino. E é esta missiva que Nora Twomey (direção) e Angelina Jolie (produção) se comprometem a evidenciar. Estamos então perante um filme com perspectivas feministas que atinge contornos realistas e pessimistas, para poder 'gritar' ao mundo que existem regimes opressores no Médio Oriente e que os massacres e atentados contra a liberdade e os direitos humanos são uma constante.  
A história é uma adaptação do livro homônimo de Deborah Ellis e conta as desaventuras da menina Parvana que após a prisão injustificada de seu pai se vê obrigada a vestir-se de menino e a comportar-se como tal, para poder sair à rua e arranjar trabalhos que possam sustentar a mãe, a irmã e o seu irmão bebé. 
O argumento é duro, frio e atroz.  Tal como o livro. E a par deste é narrado um conto imaginado por Parvana, que demonstra a capacidade e a instrução da menina, por ter pais letrados. O conto, também ele algo duro e atroz,  surge quando Parvana precisa de acalmar e embalar o seu irmão mais novo ou quando precisa de acalmar a sua amiga em situações de ansiedade e medo. No meu entender, o conto seria desnecessário, ou então mereceria um encurtamento, para não atropelar o ritmo da história principal.
A animação é de traços e de cores fortes e pretende sempre evidenciar o medo e a repressão vividos pelos personagens. Contudo, o castanho é a cor dominante e escolhida para pintar cidades, desertos e as próprias personagens. Entendo a escolha mas chega ao ponto em que se torna cansativo todo aquele cenário marron. 
O mais importante neste The Breadwinner é a lição de que se pode fazer animação com assuntos sérios e temáticas adultas ao alcance de qualquer olhar infantil. É mostrar que a educação também faz parte quando apelamos às crianças para que reflitam sobre os problemas do mundo e da sociedade. Porque nem só de fantasia deveria ser feito o universo infantil. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Maryline


Guillaume Gallienne apresenta-nos a sua segunda longa-metragem, depois do sucesso proclamado nos Césares 2013 com A Mamã, os Rapazes e Eu. Este filme é uma reflexão sobre o mundo do  “espectáculo”,  através da evolução 
de uma jovem actriz: vinda de uma pequena aldeia acaba por escolher Paris para fugir à monotonia e lançar-se no mundo do cinema. 
Maryline é a imagem comum de uma protagonista idealista, ingénua e verdadeira, que acaba por ver o seu percurso dificultado pela mesquinhez, concorrência e deslealdade existentes em ambientes de bastidores.  Amarguras enterradas no álcool, Maryline é salva aqui e ali por colegas de trabalho humildes (fora da área do espetáculo), por gente simples e  pela descoberta do teatro. E é pelo teatro que a protagonista vinga como actriz e mulher mais realizada. Dramatismo e histerismos à parte, o filme é um banho singelo de realidade, mesmo que tenha nascido de uma a ideia comum e demasiado semelhante a tudo o que se fez até agora.  



quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Happy End


 Happy End de Michael Haneke, é o sucessor do admirável  Amor (2012), e repete as presenças de Jean-Louis Trintignant e de Isabelle Huppert
Ao contrário do título, a história de feliz não tem absolutamente nada. Assistimos ao lento desabamento em tempo quase real de uma família rica de Calais, com as suas crises pessoais, conflitos familiares e obstáculos profissionais. Existe um patriarca viúvo que perdeu a alegria de viver e aspira pela morte, chegando mesmo a tentar o suicídio, uma filha enamorada de um inglês e às turras com um filho desequilibrado, a tentar assumir o controle dos negócios de família e um filho cirurgião obrigado a tomar conta de uma filha que pouco conhece, após a hospitalização da mãe da mesma.  Em torno desta família gira o mundo real: sindicatos em greve, inspetores do trabalho e emigrantes africanos. 
Haneke é exímio mais uma vez no cruzar de pequenas histórias que formam um todo e na forma rude, fria e real como as filma. É fácil envolvermo-nos no que vemos com aquela sensação de murro no estomago e azia na boca. Não tão fácil quanto em Amor já que este Happy End é filme mais recatado, mais tímido e confortável. Ainda assim, é fácil o envolvimento. 
Excepção feita a algumas pontas mal entrelaçadas e explicadas, Happy End é mais um filme de Haneke de grande qualidade. Sem surpresas. O ator mantém o registo (de enorme talento) a que já nos habituou.