quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A polémica e o novo livro de Saramago


José Saramago afirmou que "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana". O escritor considerou o conceito de inferno "completamente idiota"
Sobre o livro "Caim", apresentado dia 19, o escritor defendeu que "na Igreja Católica não vai causar problemas porque os católicos não lêem a Bíblia". Mas admitiu que poderá gerar reacções entre os judeus.
"A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!", criticou, em Penafiel, numa entrevista à agência Lusa, o Nobel da Literatura de 1998, para quem não existe nada de divino na Bíblia, nem no Corão.
"O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!" afirmou.
Sublinhou que "as guerras de religião estão na História, sabemos a tragédia que foram". E considerou que as Cruzadas são um crime do Cristianismo, porque morreram milhares e milhares de pessoas, culpados e inocentes, ao abrigo da palavra de ordem "Deus o quer", tal como acontece hoje com a Jihad (Guerra Santa). Saramago lamenta que todo esse "horror" tenha feito em nome de "um Deus que não existe, nunca ninguém o viu".
"O teólogo Hans Kung disse sobre isto uma frase que considero definitiva, que as religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros. Só isto basta para acabar com isso de Deus", afirmou.
Criticou também o conceito de inferno: "No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota!".
"Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer", disse.
"Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?", perguntou.
"Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca".

5 comentários:

lumadian disse...

Foi exactamente o que eu pensei quando acabei de ler a bíblia. Sei que devemos respeitar a opinião dos outros (e sou muitas vezes criticado por isso), mas é muito complicado para mim entender que existam pessoas que acreditam seja em que Deus for.

disse...

O Saramago, tu, e todos nós, podemos dizer e o que entender sobre a Religião, o estado, as pessoas, a sociedade o que quer que seja! Todos nós o podemos fazer, a liberdade de expressão não existe só para alguns temas, existe para tudo. Já é tempo da Igreja saber lidar com os não crentes e todos os que têm direito a serem ateus.

lumadian disse...

Amanhã às 21 horas na Sic, o frente a frente entre Saramago e um representante da Igreja. Não posso perder!!!

Olga disse...

Todos têem direito à sua opnião!!

Alexandre Correia disse...

Olá Bé,

Diz-se que o pior cego é aquele que não quer ver e quem viver com os pés assentes na terra e quiser ver o que se passa no mundo com realismo, tem de concordar com as palavras de José Saramago. O que não quer dizer que JS seja dono da razão. Ele diz meias verdades e faz sempre questão de omitir a outra metade, o que é uma arrogância para uma figura que sabe que tem uma enorme exposição mediática. Ainda que genuínas, interrogo-me se a insistência com que JS fala das suas convicções anti-religiosas não farão parte de uma brilhante estratégia de marketing, pois a verdade é que funcionam como tal. Basta uma declaração polémica para alimentar notícias e mais notícias, que acabam, invariavelmente, por despertar imensa curiosidade pelos seus livros. Nem que seja porque não devemos criticar aquilo que não conhecemos.
Mesmo sem subscrever totalmente a sua interpretação destas questões religiosas, que no seu essencial são comuns à minha visão, JS esquece-se de um aspecto fundamental na vida: a fé. É a busca dessa fé que leva milhões e milhões a fixar-se num Deus qualquer. E há quem consiga essa energia espiritual concentrando-se em si próprio e acreditando em si. Mas sem fé, acho que nem JS conseguiria viver.

Beijo,

Alex