La petite dernière é um filme baseado no romance de Fatima Daas, publicado há uns cinco anos — uma poderosa autoficção sobre a dificuldade de se ser autentico. Neste caso, uma francesa de ascendência norte-africana, a viver nos subúrbios de Paris, lésbica, muçulmana praticante, que preza Deus, a sua família e a literatura. A realizadora Hafsia Herzi abraça esta obra por completo, e o seu objetivo é imediatamente evidente: a sua heroína merece amar-se. A sua mãe irradia bondade, provavelmente conhecendo o segredo da adolescente sem que seja necessário — ou sequer possível — falar sobre ele. O pai, por sua vez, mantém-se distante, o seu corpo cansado e abandonado na sala de estar, em frente à televisão, num ambiente acolhedor e feminino centrado na cozinha. Os aromas dos cozinhados invadem toda a casa, e as brincadeiras das irmãs mais velhas tambem. Hafsia Herzi demonstra o gosto pela sensualidade e por cenas do quotidiano representadas por atores amadores, ou seja, pessoas convidadas para fazerem de si proprias, como por exemplo, o medico especialista em asma- um verdadeiro pneumologista e o imã intransigente quanto às proibições religiosas. Quem arrasa com tudo à sua frente é nada mais nada menos do que Nadia Melliti, tambem amadora e que dà corpo à personagem principal, e que foi coroada em Cannes com um prémio de representação. Seja a rezar, seja a namoriscar, enfurecida, a chorar, a jogar futebol ou a dançar, ela dá um rosto único e inesquecível a esta comovente história de amadurecimento.

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