quinta-feira, 27 de março de 2025
terça-feira, 18 de março de 2025
domingo, 16 de março de 2025
May December
O novo filme de Todd Haynes constrói-se nos contrastes das zonas cinzentas entre a moral, a política e a cultura. A história é meio sombria e perturbadora, inspirada na historia real de Mary Kay Letourneau, uma professora que em 1996 se tornou conhecida de todos por seduzir um aluno de 12 anos. Apesar das similaridades, May December distancia-se bastante do caso de Letourneau a ponto de desprender-se de qualquer tipo de imitaçao. Os diálogos e a banda sonora escolhida aparecem para transformar a história, gradualmente, numa especie de pesadelo gélido: tudo é cronometrado com base na música, o movimento da câmera, os movimentos dos atores... tudo. O mais importante do filme talvez seja a interpretação das duas protagonistas: Moore e Portman. A malícia e o desejo que transparecem nas interpretações de ambas identificam-se exatamente com a intensidade das suas personalidades. Porque detràs da vida simples e doméstica de Gracie está um crime terrível, que, por sua vez, é justificado pela sua ingenuidade. Elizabeth, por outro lado, é o falso espelho que se recusa a reconhecer o papel que interpreta naquelas vidas. É como se estivéssemos a assitir a dois filmes sobrepostos, um que propõe a ideia e outro que propoe a critica. May December é definitivamente um clássico contemporâneo. O resultado é um filme desconfortável – mas nada explosivo – que traz de volta ao cinema a incerteza em um momento em que tudo é afirmaçao.